O Jogo do Papa
2007-5-10
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Eduardo Hoornaert
Até o presente momento, o papa Bento XVI está dirigindo a cena de sua visita ao Brasil com notável inteligência. Não se fala sobre questões básicas que afligem aquele segmento da humanidade que ele ora visita e que é exemplarmente representado pelo Brasil, como a fome, o aquecimento global, a tirania exercida pelas mega-empresas multinacionais e pelo sistema de comunicação de massas, a ausência de educação de qualidade, o abandono das populações por parte das autoridades. O papa centraliza suas falas em torno de temas como ‘luta pela vida’ (no sentido de luta contra o aborto), santidade (no sentido de veneração de santos canonizados pela igreja, como Frei Galvão) e outros temas que monopolizam as atenções durante sua visita.
O único momento em que o papa deixou uma brecha para eventuais perguntas incômodas ocorreu por ocasião de uma entrevista que ele concedeu a jornalistas no avião que o trouxe de Roma para São Paulo. Indagado sobre a Teologia da Libertação, ele respondeu que o maior erro dela consistia em ‘esperar resultados imediatos’. Alguém poderia ter aproveitado da ocasião para perguntar o que ele achava da idéia, defendida por Leonardo Boff, de que a luta pela preservação do planeta doravante teria de ser prioritária, acima da tradicional concorrência entre religiões. Assim as religiões estariam unificadas em torno da ‘luta pela vida’ num sentido bem mais amplo do que aquele apresentado pelo papa. Seria igualmente oportuno perguntar ao papa qual a sua postura, por exemplo, diante da existência de paraísos fiscais, que privam anualmente os governos do mundo inteiro de muitos bilhões de dólares, impossibilitando a implementação de muitos projetos de cunho social. Alguém poderia perguntar o que ele opina sobre as leis atuais do comércio internacional. E assim por diante. Seria interessante saber também o que o papa acha de certas iniciativas de ação não violenta, como o movimento dos ‘sem terra’ no Brasil ou dos ‘zapatistas’ no sul do México. E, finalmente, qual a opinião dele sobre o trabalho das comunidades de base, espalhadas pelo continente latino-americano e caribenho.
Nada disso entrou em pauta. O papa consegue se manter longe desses assuntos, como se a ‘luta pela vida’ se resumisse na luta contra o aborto. Tanto o presidente da república como o governador de São Paulo se apressaram em dizer que comungam com as idéias do papa. O primeiro, na saudação no aeroporto de Cumbica, não abordou nenhum tema que não esteja dentro da pauta preestabelecida pelo papa. Parecia pedir perdão por ter declarado, na semana passada, que o aborto, tal qual é praticado no Brasil, decorre – na grande maioria dos casos – da escandalosa divisão existente na nossa sociedade entre pobres e ricos.
Na abordagem do papa, o aborto é um tema moral. Ele não demonstra saber que existem numerosas clínicas clandestinas de aborto espalhadas pelo país. Para ele, aborto é pecado, ponto final. Quando a questão do aborto foi levantada por um dos jornalistas na referida entrevista no avião, sua resposta veio rápida: ‘Um representante do povo que porventura vota a favor da lei do aborto, tem de retirar-se da comunhão eclesial’. O papa insiste: ‘A lei canônica é explícita neste ponto’. Portanto, a visão dele gira em torno de um ‘conceito’ definido como ‘assassinato de um ser inocente’, pecado da maior gravidade. O papa passa por cima de análises de abortos praticados em situações concretas e divulgados em pesquisas sociológicas.
Isso, na realidade, é um jogo. Importa desviar o olhar do público e fazer com que as pessoas não percebam o óbvio e não usem o bom senso. O jogo do papa é um jogo de poder e hegemonia, com astúcia e sem misericórdia, como qualquer jogo em torno do poder. Um jogo de avanços e recuos, diplomacia, amabilidade e aparência. Neste mundo cruel, onde os instrumentos sociais (TV, governo) não costumam considerar as pessoas comuns, o primeiro dia do papa no Brasil não traz clareza. Ao contrário, confunde mais. Ele deixa o povo de Deus abandonado à própria sorte.